IA PARA EMPRESAS

Inteligência corporativa na Era das IAs

Por Bruno Lobo Pinheiro 4 min de leitura
Ilustração Inteligência corporativa na Era das IAs

Eram líderes, diretores e alguns convidados. Todos na sala para pegar o briefing de uma nova campanha de beleza.

As perguntas vieram rápido: por que a estratégia anterior focou só em influenciadores? Quais foram os resultados? Por que o cliente achou que foi um fiasco?

Ninguém sabia. A conta tinha trocado de mãos. Os arquivos estavam espalhados pela rede, as pesquisas não eram acessíveis, os relatórios traziam dados conflitantes. O silêncio na sala durou mais do que deveria. No fim, tivemos que admitir ao cliente que não havia histórico aproveitável. Fomos para a próxima etapa do zero.

Aquela reunião me incomodou por muito tempo. Não pelo constrangimento, mas pela pergunta que ficou: isso é falha humana ou sistêmica?

"O problema não é a falta de dados. É a falta de memória."

Toda empresa acumula conhecimento. Estratégias que funcionaram, pesquisas que custaram caro, relatórios que levaram semanas para ser produzidos. O problema é que esse conhecimento sai pela porta junto com as pessoas que o carregavam na cabeça.

Pesquisas de mercado sobre retenção de dados corporativos mostram um padrão consistente: uma parcela significativa dos profissionais que mudam de emprego leva consigo informações da empresa anterior, e parte deles pretende usar esses dados em um novo contexto. Não necessariamente por má-fé. Muitas vezes porque aquele conhecimento simplesmente não estava registrado de forma que pudesse ficar para trás.

O que sobra nas redes corporativas, quando sobra alguma coisa, costuma ser o oposto: um acúmulo de arquivos desorganizados, versões antigas, apresentações sem contexto. De acordo com dados validados pela IBM e IDC, cerca de 80% dos dados corporativos são não estruturados e permanecem intocados. Esse volume compõe o que o Gartner define como Dark Data: ativos de informação coletados na rotina operacional, mas que a empresa falha em utilizar para análises ou geração de novos negócios.

RAG: transformar arquivos em memória institucional

Uma das respostas mais concretas que encontrei para esse problema chama RAG, Retrieval-Augmented Generation. Em termos simples: é uma técnica que permite que uma IA acesse e processe os arquivos da sua própria rede antes de responder a qualquer pergunta. Não a base pública do ChatGPT ou do Gemini. Os seus arquivos, dentro da sua casa.

O que isso muda na prática? Três coisas fundamentais:

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  1. Primeiro, seus dados ficam onde devem ficar. Dentro dos seus servidores, sem alimentar a base de conhecimento pública das grandes LLMs.
  2. Segundo, qualquer colaborador pode acessar essa inteligência acumulada. É como ter um analista que leu tudo que a empresa já produziu e consegue responder perguntas com base nisso.
  3. Terceiro, o processo de organizar os dados para o RAG obriga a empresa a decidir o que vale guardar de verdade. E isso, por si só, já é um ganho estratégico.

O que aprendemos usando isso na própria Shaper

Não falo de RAG como quem leu sobre o assunto. A Shaper usa esse modelo internamente, como parte do nosso processo de consultoria.

O maior desafio não foi tecnológico. Foi convencer a equipe a registrar apenas três tipos de arquivo que realmente importam para uma memória estratégica funcionar: briefings e transcrições de reuniões estratégicas, apresentações em suas versões finais, e dados estratégicos como pesquisas, brand lifts e brand tracking. Tudo fora disso é ruído. E ruído alimentado em um sistema de IA produz respostas ruins.

Depois dessa curadoria, o ganho foi direto: em vez de presumir se uma estratégia funciona para determinado segmento, conseguimos verificar se já passamos por algo parecido, qual foi o resultado, o que mudamos ao longo do caminho. Para uma consultoria, ter uma base para balizar decisões ao invés de operar só por intuição muda a qualidade das recomendações.

Aquela reunião de briefing que descrevi no início teria sido diferente com isso. Não necessariamente mais fácil. Mas diferente.

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Nos próximos artigos vou trazer casos mais detalhados de como agências e departamentos de marketing estão usando isso na prática, incluindo os erros que cometemos no caminho.

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Bruno Lobo é fundador da Consultoria Shaper e trabalha há mais de 15 anos no mercado de comunicação, publicidade e propaganda, marketing e branding. Foi Head de Estratégia na LOLA/TBWA, e passou por grandes agências como Lew’Lara, Dentsu e Isobar.

Em sua carreira, teve a oportunidade de trabalhar com grandes marcas como: Samsung, Nivea, Ferrero, M Dias Branco, Friboi, Banco do Brasil, Azul Linhas Aéreas entre tantas outras. Somando à sua carreira profissional estão alguns prêmios como Cannes Lions, Effie Awards, Clio e El Ojo e outros.

Já lecionou a disciplina de Planejamento Estratégico na Pós-Graduação do IESB e na Miami Ad School, além de dirigir outros cursos e turmas independentes. É Bacharel em Comunicação Social com foco em Publicidade e Propaganda e MBA em Marketing pela FGV, além de outros cursos e especializações.

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